Permitam-me uma manifestação de sentimento e emoção pessoal neste momento. Quero dizer a todos vocês que me sinto um homem extraordinariamente privilegiado. Constitui aqui e venho participando a cada dia da construção da família mais bonita do mundo. Tenho a felicidade de conviver com a companheira perfeita, minha âncora e meu refúgio, o porto seguro onde sempre vou ter, como disse o poeta. Tenho três filhos adoráveis, ontem coisinhas pequeninas que vejo crescer e se transformar em pessoas humanas dignas e responsáveis. Conquistei o respeito dos meus concidadãos, que aprovam e incentivam o trabalho que faço com amor e com prazer. E tenho vocês todos, esta multidão de amigos que me obriga a superar minhas deficiências e limitações, para me tornar digno do carinho e da amizade de vocês. Mil vezes que eu repetisse, ainda não seria o bastante: muito, muito obrigado.

Flávio Scaldaferri - Itapetinga, 25 de abril de 1998 - nº 1.000


"A dor da gente"

Pela terceira vez consecutiva o dia amanhece e Flávio não está ao meu lado. Ao longo dos nossos vinte e nove anos, três meses e oito dia de casados, somente em dois momentos estivemos tanto tempo separados fisicamente. E dessa vez a separação é para sempre. O processo de conscientização de tal realidade não poderia ser mais sofrido. Estou cercada de carinho. Minha família, meus irmãos, meus amigos, meus filhos tentam de toda forma aliviar a minha dor. O telefone não pára de tocar, as visitas se sucedem, os telegramas chegam a todo instante e as mais variadas palavras de conforto se avolumam em minha cabeça. As horas se arrastam. Em velocidade oposta viajam os meus pensamentos e se atropelam, pois não consigo evitar a colisão das lembranças boas do passado com as imagens doídas do presente. Tento organizá-las, procurando entender o significado de todas. Separo duas para caracterizar Flávio neste momento.
A primeira é intensidade. Flávio era intenso e foi intensamente que defendeu idéias, princípios, abraçou causas e brigou por elas. Para ele as meias palavras eram frágeis, não tinham o poder do convencimento. Certamente porque pensava assim e verbalizava sem receio, sem medir conseqüências foi admirado e incompreendido talvez na mesma proporção.
Com intensidade também ele soube amar. Todos nós que fomos amados por Flávio entendemos agora o que ele pretendia quando nos cercava de tanto bem querer. Estava deixando saldo, acumulando reservas para que suportássemos melhor a sua distância.
Talvez nem fosse necessário dizer da intensidade com que lutou pela vida nestes últimos quatro anos. Isso todos que o conheceram sabem muito bem.
A segunda palavra é alegria e para explicá-la melhor é preciso retroceder no tempo. Seis de agosto de 1969. Já namorávamos há alguns meses e percebíamos como éramos diferentes. O que nos unia e de forma tão forte, certamente, estava fundamentado na velha teoria dos opostos que se atraem ou que se amam de verdade. Sei lá. Trocávamos carta naquela época - e fizemos isso ao longo do nosso relacionamento, sempre que sentíamos vontade. Pois é, na data mencionada recebi uma carta que terminava assim: "Talvez Vinícius de Morais tenha razão" e o meu caminho seja triste prá você". Não sei. Mas eu não quero que seja, vou fazer tudo, tudo pra não ser. Você sabe."
Era claro que eu sabia e ele cumpriu a promessa. Na nossa casa a imagem mais forte que temos de Flávio é a da alegria. Ele era barulhento, brincava muito, cantava muito, tinha a enorme capacidade de não deixar a tristeza ocupar espaço em nosso lar. Hoje temos certeza de que ele construiu para mim e para os nossos filhos um caminho muito alegre.
Nesta semana, vendo Danilo, Murilo e Isabela, de forma tão corajosa, driblando a tristeza e assumindo com tio Milton, os amigos e a equipe do Jornal, a edição do próximo sábado, fiquei com vontade de dividir com todas as minhas emoções. Agindo assim estarei também contrariando mais um poeta - Haroldo Babosa - que em um verso de uma antiga canção afirmou: "a dor da gente não sai no jornal". Certamente ele nunca leu o Jornal Dimensão. Um semanário idealizado por um homem intenso, alegre, forte, independente - que nunca se prendeu às normas - e por isso criou as mais diversas possibilidades de publicações jornalísticas.

Obrigada a todos, por tudo.

Isabel Scaldaferri